Ensaio sobre autismo

Muita gente tem a noção equivocada de que autistas são sensíveis no sentido de frágil. O estereótipo autista atualmente é o de pessoas que não suportam barulhos, multidões, além de não fazerem contato visual. Quando você procura nas redes sociais como o Instagram ou TikTok sobre o autismo, o que mais aparece são pessoas trancafiadas em seus quartos usando supressores de ruído e agindo de maneira excêntrica. Esse tipo de pessoa ajuda a reforçar ainda mais o esterótipo de que o autista é frágil e o propósito desta elaboração é esclarecer o que o autismo realmente é e como lidar ele.

Antes de tudo, preciso contextualizar que sou pós-graduado em neuropsicologia e possuo uma hipótese diagnóstica de autismo com altas habilidades. A hipótese compreende testes de atenção, QI, inteligência verbal, anamnese e outros numa bateria de 8 sessões.

O autismo é um super poder, a sensibilidade que advém da condição permite que eles [os autistas] sejam mais perceptíveis do que as outras pessoas, se eles não souberem lidar com isso acabam se fragilizando e ficando com medo de sair pelo mundo para realizar suas atividades. Não há nada de errado em possuir hiperfocos e interesses de nicho, essas são características normais de todo ser humano, o que não é normal é ficar preso no mundo da mente e achar que tudo ao redor deles tem que corresponder às suas expectativas. Pelo fato de eles possuírem uma percepção de mundo muito maior, processam mais informação do que as outras pessoas e isso passa a impressão de que estão desatentos ou “vivendo no mundo lua”. Isso acontece com as pessoas que se identificam com a própria mente e por conta disso elas não adquirem uma distância entre elas e seus pensamentos. A identificação é a causa número 1 daquilo que as pessoas chamam de “colapso autista” ou autistic meltdown do inglês, a pessoa se sente sobrecarregada com a quantidade de estímulos e precisa se isolar para descansar a mente inferior. É daí que vem os traços mais conhecidos como o isolamento social, ouvir músicas repetidas e a rotina toda sistematizada e inflexível, o intuito dessas coisas é diminuir a quantidade de estímulos para o autista processar e servir de zona segura para descansar a mente para novos estímulos.

A maior prova de que essa identificação existe está no uso exacerbado de rótulos, vestimentas e vocábulos típicos de outros indivíduos com a mesma condição a fim de serem aceitos em alguma comunidade. Outro erro comum é se identificar com os próprios processos mentais e achar que estão correndo perigo por não estarem em um ambiente familiar ou em situações familiares, como dizia Sêneca:

A pessoa que sofre antes do necessário, sofre mais do que o
necessário

O que isso quer dizer? Quer dizer que as pessoas sofrem mais em pensamento do que na realidade, tudo nasce da mente, incluindo esses problemas que os autistas de internet sofrem. É lógico, você não está imune às fadigas comuns do dia a dia, porém a maioria dos problemas reside na dimensão psicológica.

Como lidar com o autismo

Em termos práticos, para lidar com o autismo é necessário parar de se identificar com os processos mentais 1 e se autoconhecer. Não existe fórmula mágica, o processo é chato assim mesmo. Para conhecer os seus processos mentais você precisa respirar do jeito certo, estudar as três vias da linguagem e a utilizar o córtex pré-frontal da maneira correta, nessa precisa ordem. Essas são coisas que as pessoas ignorantes gostam de chamar de “hiperfocos” ou “interesses de nicho”, no entanto, 100% dessas pessoas sequer sonha que essas técnicas existem.

Conhecer o seu próprio corpo faz parte do autoconhecimento, e de quebra, você vai estar conhecendo o processo mental de outras pessoas também. Sempre que eu falo em “corpo” eu também estou me referindo ao cérebro, pois o cérebro faz parte do corpo. Já passou da hora de você perceber que a consciência não está no cérebro e que o autismo reflete quem você realmente é ao invés de uma deficiência 2. Você é na mais pura essência um ser com percepção aguçada, independente do teu cérebro ser capaz ou não de filtrar estímulos, a condição cerebral é um mero reflexo, um efeito e não a causa do que você realmente é.

Lembre-se:

Você não é sensível porque é autista, você é autista porque é sensível.

Como ajudar outras pessoas com autismo

Partindo do pressuposto de que você não é autista, mas tem algum familiar que nasceu nessa condição, saiba que isso que escrevi se aplica a você também. Você precisa conhecer os seus próprios processos mentais antes de querer ajudar outras pessoas, isso inclui, amigos, colegas, parentes, etc.

Não importa se você é leigo em psicologia ou um mestre nessa área, o autoconhecimento é requisito primordial para quem quer ajudar os outros. Conheça a ti mesmo antes de tudo.

Grande abraço,

Obs.: quem não sabe por onde começar e quer indicações, mande um e-mail na página “Chaves GPG”.


  1. não confunda isso com o transtorno de despersonalização da psiquiatria. ↩︎

  2. achar que a consciência é um atributo da mente é o cúmulo da ignorância no intelecto materialista. ↩︎